Em janeiro de 2026, o rotativo do cartão custava 424,5% ao ano segundo o BCB. Uma dívida de R$ 1.000 vira R$ 5.245 em 12 meses. Veja a simulação e o que fazer.
Contexto
O Banco Central do Brasil publicou o número. Não é estimativa. Não é exagero de blog financeiro. É dado oficial, publicado mensalmente no Sistema Gerenciador de Séries Temporais do BCB.
Em janeiro de 2026, o cartão de crédito rotativo custava 424,5% ao ano para o consumidor brasileiro.
Você leu certo. Quatrocentos e vinte e quatro vírgula cinco por cento ao ano.
O que 424,5% ao ano significa na prática
Uma dívida de R$ 1.000 no rotativo do cartão, não paga integralmente por 12 meses, com juros compostos a 424,5% ao ano:
Após 1 mês: R$ 1.135 (taxa mensal de ~13,4%) Após 3 meses: R$ 1.461 Após 6 meses: R$ 2.134 Após 12 meses: R$ 5.245
R$ 1.000 de dívida virou R$ 5.245 em apenas um ano sem que o devedor fizesse mais nada além de não pagar a fatura.
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Como isso é possível num país civilizado
O Brasil tem legislação que limita os juros do rotativo do cartão a um período de 30 dias — após esse prazo, a dívida obrigatoriamente migra para o parcelado, que tem taxa menor. Mas o rotativo em si — o período entre o vencimento e o parcelamento — permanece sem teto legal de taxa.
Resultado: qualquer pessoa que paga menos que o valor total da fatura num único mês paga juros de 424,5% ao ano pelo período em que ficou no rotativo.
Quem usa o rotativo
Levantamento da Serasa indica que grande parte dos 81,7 milhões de inadimplentes do Brasil acumulou dívidas que começaram em produtos de crédito emergencial — cartão de crédito e cheque especial. A dívida pequena, não paga integralmente num mês difícil, que migra para o rotativo e começa a crescer a 424% ao ano.
O salário do mês seguinte não consegue cobrir o crescimento da dívida do mês anterior. Começa o ciclo.
O que o banco paga para captar o dinheiro que empresta no rotativo
O banco capta recursos via CDB, poupança e mercado interbancário. Custo médio de captação próximo ao CDI: 14,15% ao ano.
Capta a 14%. Empresta a 424%. O spread bruto nessa operação é de 410 pontos percentuais.
Não existe produto financeiro no mundo desenvolvido com spread equivalente. A maioria dos países limita os juros ao consumidor. O Brasil, no rotativo do cartão, não limita.
Por que o banco não quer que você saiba
O banco não apresenta a taxa do rotativo em linguagem acessível. Apresenta o percentual mensal — "13,4% ao mês" — que parece menos dramático que 424% ao ano. A maioria das pessoas não converte um para o outro.
Essa opacidade não é acidental. É design.
O que fazer
Nunca pagar menos que o total da fatura do cartão. Se a situação exigir crédito emergencial, qualquer outro produto tem custo menor — empréstimo consignado a 26% ao ano, home equity a 15%, até crédito pessoal a 70% é melhor que 424%.
O cartão de crédito é um instrumento de pagamento. Nunca de financiamento.
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